Canoas de boçarda da Praia do Pontal

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Da esquerda para a direita têm-se, em uso: as canoas “Estrela” (“Companha” do Moacyr), Rejane (“Companha” do Cemar), Natal (“Companha” do Bitico) e Nova Alvorada (“Companha” do Dudu). A canoa “Estrela” está destituída da “coberta”, devido à intempérie. E, a “Rejane” passa por reformas no seu casco.

Canoas de boçarda da Praia do Pontal  [*]

Por: Paulo Sérgio Barreto

Na pescaria na Praia do Pontal existem hoje 04 (quatro) “Companhas” com “direito do dia da vez” que correspondem às “canoas de boçarda” de Moacyr, Dudu, Cemar e Bitico. O “Totonho”, desde que ocupou o “paiol” do seu tio, nos anos de 1980, nunca formou “Companha”. Antigamente, na Praia do Pontal, as canoas ficavam dispersas e/ou rentes aos “paióis” na entrada dessa praia. Até os anos 70, na época de pesca do xerelete – de dezembro a fevereiro – as 04 (quatro) canoas ficavam afastadas dos “paióis” e aportadas no ponto de referência da pesca, denominado de “Porto das Canoas”. Predominava, ainda, naquele tempo, o sistema de “tranqueira” que consistia em secar ao sol as antigas redes de barbantes grossas. Em meado da década de 1980, o sistema de deslocamento das “canoas de boçardas” chamado de “vai-e-vem” – subir e descer a canoa da/para a beira da praia em zig-zag – fora substituído pelo atual “trilho com roletes” de aço (canoa grande) e de madeira ou PVC (canoa pequena). No sistema antigo de deslocamento, a canoa deslizava em “zig-zag”, através de três “guias” (madeira de 06 metros, roliça e fina), posta de maneira alternada e de forma sucessiva abaixo do “rombo” da canoa (esta última peça se caracteriza por duas bases de madeiras finas e compridas, em paralelo, sob o casco da embarcação).

Espaço à esquerda uso para o embarque e desembarque das “canoas de boçarda” – 2015.

Espaço à direita ocupado, recentemente, por caícos de madeira e barcos de fibra de vidro e de alumínio para a pesca de linha – 2015.

Em particular, as “canoas de boçarda” mudam de nomes, quando adquiridas por novos proprietários. Às vezes, provocando certas indignações e reprovações dos antigos donos que insistem em demarcar o nome original, mesmo após a venda, com documentação na Capitania dos Portos. A identificação visual das canoas (individualmente, ou em lote) se dá efetivamente pelas escolhas de cores simbólicas que os proprietários imprimem nas mesmas. Caso, o proprietário, tenha canoas em outras praias se reproduzirá as mesmas cores. Demarcando, assim, a identidade visual conjugada pela escolha de um nome derivado ou que represente os fenômenos da natureza ou as “situações” inusitadas e/ou irônicas, acontecidas ou não, reais e imaginárias. Notadamente, quando os nomes das canoas são femininos é porque sua representatividade demonstra afetividade às filhas do dono da canoa. De forma reiterada, os nomes são homenagens representativas.

Em 2012, ainda existia a canoa de “boçarda” de 150 anos do falecido mestre vigia da pesca “Vica” que foi perdida pela intempérie e pelas ações de pragas. A canoa mais antiga da região, em uso, localiza-se na Prainha, e, veio de Barra de São João com nome de Bacural. Foi confeccionada em tronco de cedro. Está na ativa há mais de cem anos. A menor canoa encontra-se na Praia dos Anjos, aproximadamente com 3 metros e é usada para a pesca de linha. No entanto, algumas já não têm mais as condições de uso para a pesca ou por falta de restauro e/ou por ações de pragas. Esta situação compromete ainda mais a pesca tradicional na cidade.

O IPHAN, em 2011, através do Departamento de Patrimônio Material e Fiscalização (Depam), inventariou 30 (trinta) canoas de “boçardas” ativas na cidade.[1] Hoje, em 2015, algumas dessas canoas encontram-se em outras praias. Possivelmente, com outros proprietários. De qualquer forma, o “inventário” permite trazer algumas informações e características das 04 (quatro) canoas ativas da Praia do Pontal.

 

“Canoa Estrela” da “Companha” do Moacyr e família – 2015.

A “canoa Estrela” é de propriedade de Moacyr e seus familiares. Não se sabe a procedência da canoa. Possivelmente, tenha mais de 55 anos. Pelo relatório, essa canoa tem as seguintes dimensões: 09 metros de comprimento; 1,10 metros de boca e com borda livre de 20 cm. Seu casco é de Pequi, e os remos são de madeira de Angelim. A canoa tem pintura com acabamento em branco (no casco) e com listras azuis (nas bordas e boçardas) e em preto (no seu fundo e na parte externa do “rombo”).

 

“Canoa Nova Alvorada” da “Companha” do “Ex-vereador Dudu” – 2015.

 

 

 

 

 

 

 

 

A “canoa Nova Alvorada” é de propriedade de Leonardo (apelido, Nardinho), irmão do “Ex-vereador Dudu”. Pelo relatório, essa canoa tem as seguintes dimensões: 10 metros de comprimento; 1,40 metros de boca e com borda livre de 15 cm. Seu casco é de Pequi, e os remos são de madeira de Angelim. A canoa tem pintura em verde (borda) e o seu casco tem faixas em branco e preto. Diferente das demais tem “mastração”, para a vela. Possivelmente fora usada antes, na Praia dos Anjos, no pesqueiro do Maramutá (Ilha do Farol) até o final dos anos de 1960 quando se ia do continente a Ilha a vela e/ou em reboque de barcos motorizados. A “canoa Nova Alvorada” é a única na Praia do Pontal que ainda tem estampado o registro de inscrição da Capitania dos Portos/Marinha do Brasil, sob o N°. 384.00346.8.

 

“Canoa Rejane” da “Companha” do Cemar – 2015.

 

 

 

 

 

 

 

 

A “canoa Rejane” é de propriedade do falecido Elevir Benjamim de Andrade (apelido, Vica) e família. Antes, a mesma, se chamava “Rosana” quando pertencia ao ALX. Pelo relatório, essa canoa tem as seguintes dimensões: 11 metros de comprimento; 1,50 metros de boca e com borda livre de 18 cm. Seu casco é de Oiticica, e os remos são de madeira de Angelim. A canoa tem pintura em azul com detalhe em branco (borda), e o seu casco tem faixas em branco e vermelho.

 

“Canoa Aliança” da “Companha” de Bitico – 2015.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A “canoa Aliança” de propriedade de Alzemiro Filho (apelido, Bitico). Provavelmente, fora produzida na fronteira entre o Espírito Santo e o sul da Bahia. Supõe-se que tenha vindo para a cidade por volta de 1950. A mesma pertencia antes aos Simas. Pelo relatório, essa canoa tem as seguintes dimensões: 10 metros de comprimento; 1,10 metros de boca e com borda livre de 20 cm. Seu casco é de Pequi, e os remos são de madeira de Angelim. A canoa tem pinturas nas cores branca na borda (antes, era amarela), e o casco em verde e marrom (na altura interna do “rombo”).

 

Canoa “Natal” da família de “Bitico”, em processo de apodrecimento – 2015.

Canoas pequenas de “redinha”. As duas estão encalhadas em frente ao “trapiche do Moacyr”. Ao fundo, têm-se o Canal Extravassor da Praia do Pontal e a cerca de mourão do PECS – 2015.

 

Existe ainda mais três “canoas de boçardas” (01 grande e 02 pequenas). Essas últimas são canoas de redinha, e sem uso. A canoa grande está em estado de deterioração, “apodrecendo”, por falta de cuidado do proprietário. As duas “canoas de redinha” estão encalhadas, sem uso, em frente ao “trapiche do Moacyr”, porém guardadas e protegidas. Há outras embarcações menores voltadas para a pesca de caíco feitas de casco de madeira, alumínio e de fibra de vidro que ficam encalhadas no “Porto das canoas”. Essas pescam, exclusivamente, à noite com linha. Estes pescadores de caíco não possuem “paiol”, e nem sequer guardam algum petrecho na praia.[2] Na Praia do Pontal as canoas de “boçarda” ficam ao relento e, dentro delas, encontram-se vários petrechos de pesca. Em especial os “paineiros” da popa e da proa; a coberta e a rede de pesca com seus cabos.

 

Provavelmente nas proximidades dessa casuarina (à frente) poderá ter alguns vestígios (alicerces) dos antigos “paióis”, inclusive, com os tanques de salga de peixe – 2015.

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

[*] Texto extraído do Relatório sobre o Patrimônio Cultural e a Chancela da Paisagem Cultural no território da pesca tradicional da Praia do Pontal, na Reserva Extrativista Marinha de Arraial do Cabo – RJ” de Paulo Sérgio Barreto/Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio/Conservação da Biodiversidade e Promoção do Desenvolvimento Socioambiental, Arraial do Cabo, 2015, pág. 74-81 (prelo).

[1] Cf. Projeto Barcos do Brasil: Diretrizes para um Plano de Preservação e Valorização do Patrimônio Naval de Arraial do Cabo (RJ) in: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN/Departamento de Patrimônio Material e Fiscalização (DEPAM), Brasília, Março de 2011. Neste “inventário” parece-me que têm lagunas de informações sobre a pesca e às atividades de carpintaria naval, realizado na cidade de Arraial do Cabo.

[2] Há, também, na Praia do Pontal, a pesca de mergulho em busca de peixe, mexilhão e/ou polvo nos costões e na Ilha do Pontal. Essas modalidades são feitas por curiosos, moradores e turistas sem tradições na pesca.