O Museu Escola Naval Mestre “Chonca” está localizado na Praia Grande e busca reformar as “canoas de boçardas” (ou “bordada” ou de um “tronco só”), bem como contribuir para a salvaguarda da pesca tradicional e dos territórios dos “Portos das Canoas” das praias de Arraial do Cabo (RJ). É uma iniciativa em pesquisa social com foco na documentação audiovisual, através do saber-fazer do Mestre Carpinteiro Naval Wilson Luiz da Silva (apelido, “Chonca”), com a participação de membros do grupo autodesignado de “Banco do Pau Mole”, além de outros mestres sabedores da cultura popular, pescadores e moradores da cidade.

O acervo expositivo da “Sala Expositiva” do Museu-Escola Naval é composto por ferramentas manuais de carpintaria naval; miniaturas artesanais de “canoas de boçardas” – gentilmente emprestadas e/ou doadas – feitas por diversos artesãos e moradores da cidade, inclusive, pelos próprios alunos das oficinas de miniaturas de canoas ministradas pelo mestre “Chonca”. O acervo conta ainda com amostras de madeiras e fragmentos vegetais que constituem um testemunho do conhecimento tradicional relacionado à matéria prima usada na construção e/ou reparo de canoas artesanais. Estas informações vêm sendo pesquisadas pela equipe de pesquisadores em etnobotânica e anatomia da madeira do JBRJ – Instituto de Pesquisa do Jardim Botânico do Rio de Janeiro e pela UFCS – Universidade Federal de Santa Catarina. No seu pequeno espaço, tem-se uma exposição significativa composta por imagens e textos, inclusive, digitais.

Canoas de “boçardas” são aquelas de 02 e de 04 remos. Em Arraial do Cabo e, possivelmente, na Região dos Lagos, Chonca é o único mestre carpinteiro naval que domina o processo de reforma dessas canoas. Desde os anos 70, ele atua na Praia Grande no seu estaleiro do “Porto das Canoas”. Aprendeu o seu ofício observando, escutando e participando das pequenas reformas e construções com os mais antigos mestres carpinteiros navais de Arraial do Cabo e de Cabo Frio. Não há outro mestre naval atuante, na sua modalidade, na cidade de Arraial do Cabo. Assim sendo, todos os donos das embarcações tradicionais o procuram quando há necessidade de restauro e reforma.

O site do museu é patrocinado por empresas que atuam na Região dos Lagos e na Resex Marinha de Arraial do Cabo - ResexMar AC/ICMbio, com vista à ação cultural de transmissão do saber-fazer, através das “oficinas de miniatura de embarcações”, assim como pela condução cultural nos locais dos “Portos das Canoas” da cidade.

A ação de salvaguarda da memória e defesa do território da pesca tradicional vem sendo estabelecida, desde 2010, com a pesquisa-curadoria do sociólogo Paulo Sérgio Barreto, membro do Grupo de Pesquisa “Mitopoética da cidade”: Experiência Subjetiva, Paisagem, Memória e Imaginação”– IPUSP/CNPq, coordenado pela Prof. Sandra Maria Patrício Ribeiro, junto com o Instituto Chico Mendes para a Conservação da Biodiversidade/Reserva Extrativista Marinha de Arraial do Cabo (ICMbio/RESEXMar AC) e demais parceiros institucionais, como, o Instituto de Pesquisa do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ) e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional/Escritório Técnico da Região dos Lagos (IPHAN/ETRL).

Em retrospectiva, o marco dessas articulações inicia-se, em 2010, no momento em que a Prefeitura local realizava obras na orla da Praia Grande, criando embaraços, constrangimentos e transtornos operacionais na área do estaleiro naval do “Chonca” e no local de encontro dos antigos pescadores e moradores, designado como Banco do Pau Mole. Em 2011, Chonca recebeu o prêmio do Edital “Mestres e Grupos das Culturas Populares” da Secretaria do Estado da Cultura do Rio de Janeiro (Chamada Pública nº 027/2010), por transmitir informalmente o seu saber-fazer sobre “canoas de boçarda” para pescadores e moradores.

De maio de 2013 a agosto de 2015, ocorreu a documentação audiovisual das “Oficinas de transmissão do saber-fazer reparos de canoas de boçarda” dentro do escopo da relação institucional entre o ICMbio/RESEXMar AC e o IPHAN/ETRL. Concomitante a isso, ocorreram, também, as “Oficinas de miniatura de canoas de boçarda” com filhos de pescadores e estudantes do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ). Desde maio de 2015, vem sendo realizadas, até os dias de hoje, novas oficinas de miniatura de “canoas de boçarda” com aprendizes inscritos em programas educativos da Superintendência de Cultura da cidade.

No início de 2015, Chonca resolveu transformar o paiol de madeira em alvenaria com ajuda dos amigos. Em maio do mesmo ano, a Prefeitura se interpôs com a proposição construtiva do “escritório”, como forma de compensação, devido aos transtornos provocados anteriormente. Para tanto, tiveram que demolir a construção de alvenaria do paiol já iniciada pelo mesmo. E, somente, em novembro de 2015, é que se concluiu o “escritório”. Atualmente, em setembro de 2016, a “Sala Expositiva” do Museu-Escola Naval Mestre “Chonca” torna-se uma realidade devido ao envolvimento e a participação do Conselho Municipal do Ambiente e da Secretaria Municipal do Ambiente de Arraial do Cabo, assim como de demais parceiros institucionais.

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