Petrechos de pesca

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Pescadores na pescaria de “caxangá” espantando o peixe para dentro da rede – 2013.

A rotina da pesca com “canoas de Boçarda”, na Praia do Pontal [*]

Por: Paulo Sérgio Barreto

Uma “Companha” trabalha durante o ano inteiro alternando, no seu “dia da vez”, a sua entrada no mar para o cerco e o arrasto na beira das praias. Geralmente, é formada por 09 (nove) membros com uma divisão social do trabalho definida pelo dono do “paiol”, e pelos espaços e funções que os pescadores assumem e ocupam dentro e fora da canoa. A tripulação da canoa é composta por 07 (sete) pessoas, sendo: 04 (quatro) remadores que remam na proa, meio, contrarré e ré em cadência e ritmo igual para dar velocidade à mesma. No meio da canoa, em cada lado, encontra-se 02 (dois) pescadores com a função de “chumbeiro” e “curticeiro” que lançam, no mesmo ritmo uniforme, a rede ao mar. Em cima do “paineiro” da popa tem-se o “mestre da canoa”, com o seu respectivo remo, guiando a canoa. E, os outros dois são o “mestre vigia” e o “cabeiro” da beira de praia.

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Elevir Benjamim de Andrade (“Vica”). Faleceu em janeiro de 2014 e era o vigia da pesca e dono de uma das “Companha” da Praia do Pontal – 2012.

Cada gesto, movimento, prática, destreza e habilidade, na situação da pesca, são negociados entre os membros das “Companhas” visando à execução dos esforços da pesca. Existe uma divisão de tarefas entre os mesmos: o “mestre vigia” – que fica na parte alta de um morro, em dunas ou em outra elevação -, observa, orienta e gesticula quanto à chegada de uma manta (ou cardume) de peixes. E o “mestre da canoa” trabalha em cima do “paineiro”, na popa da canoa. Este acompanha e observa os gestos do vigia ora no Morro do Miranda ou nas pequenas elevações dos “pesqueiros”, a beira da praia. E assim este último “demanda” a direção, a cadência e o ritmo aos demais companheiros no movimento de remada da canoa para o cerco a beira da praia. O “proeiro” rema na proa; o “meeiro”, este, rema no meio; o “chumbeiro” e o “curticeiro” não remam – estes, têm a função de jogar o chumbo e a tralha com as cortiças de forma harmoniosa e rápida ao mar – ficam de lados opostos, próximos aos pescadores que remam na “contrarré” e na “ré”. O “cabeiro” acompanha a canoa pela beira da praia, até que alguém da canoa o lance a “linha de boia” – cordinha de nylon pressa ao cabo da rede. Para assim, proceder, propriamente dito, o “arrasto de praia”.

Em alguma duna ou elevação da restinga sobre os “bancos do vigia” e/ou no “vigia” do Morro do Miranda, pelo menos, têm-se um “mestre vigia da pesca” que “demanda”, e dá o tom da pesca aos demais. Cabe ao “mestre vigia” observar o mar e acenar com um pano branco quando da localização dos cardumes ou mantas de peixes. No seu gestual, entre outros gestos, este, simboliza as funções, as práticas e as ações para o cerco tradicional: bater com o pano na perna significa que o “mestre da canoa” deve bater o remo na água para o peixe entrar na rede de arrasto; elevar o pano no alto da cabeça com os braços esticados e balançar da esquerda para a direita significa a entrada dos peixes na rede; e, da direita para a esquerda, saída dos peixes da rede; acenar com o pano verticalmente de cima para baixo (e vice-versa) é como estivesse dizendo para sair com a rede mais para fora da beira da praia para, assim, se “fazer” o cerco etc. Pelos gestos das suas mãos – no aceno do pano -, o vigia orienta os outros pescadores que estão na canoa quanto à classificação, quantidade e qualidade dos peixes. Bem como, quanto aos movimentos e deslocamentos das mantas ou cardumes à beira da praia.

Cada peixe tem um gesto, uma marca, uma maneira de ser, e, estes, são nomeados, designados e classificados pelas suas singularidades, astúcias, espertezas, bonitezas… Isto é, pelos atributos significativos que personificam “qualidades humanas”. “Os peixes viajam!” E, o seu tempo de “viagem” é marcado pela direção do vento, da cor e da temperatura das águas e pela estação do ano. Fundamentalmente decorrem dos ciclos da natureza na Região dos Lagos, fomentado pelo “Fenômeno da Ressurgência”.

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Uma das “Companha” do Pontal, na altura do bairro do Foguete (Cabo Frio), sendo orientada do Morro do Miranda pelo mestre vigia da pesca a cerca de 02 km de distância – 2014.

Todos os petrechos de pesca são reutilizados. E, artesanalmente, se fazem e se refazem cotidianamente vários objetos, instrumentos e petrechos (remos, linhas de boias, redes, cuias, sarricos e “garatéias” além dos panos de redes, tralhas e chumbos etc.). O conserto e o reparo das redes de pescar pode absorver, envolver e demandar esforços individuais e/ou de grupos de pescadores com uma duração dual entre os ciclos de pesca do inverno e do verão. Ou melhor, entre os reparos, remendos e/ou consertos ordinários e o “fazer uma nova rede” em função dos “estragos” que determinados peixes (e/ou pescaria) fazem no ato do “cerco de arrasto”. Pois alguns peixes têm dentes como a anchova, a cavala, a pescada e o robalo. Fora, os estragos dos coiós (peixe sem valor econômico).

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Arrasto de praia na Praia do Pontal – 2013.

No tempo da tainha a pesca acontece entre os meses de maio, junho e julho. Entretanto seu pano fino fora reparado, refeito, reformado e recolocado, anteriormente, nos meses de verão (dezembro, janeiro e fevereiro). Após essa temporada do tempo da tainha, de novo, retira-se os panos dessa rede para colocar na rede que pescará entre os meses de agosto, setembro e outubro os peixes de dentes, que, possivelmente, causarão novos estragos à rede nova. E, assim, têm-se mais três meses ocupados em refazer, reformar, preparar e colocar os velhos panos de rede de arrasto para a pesca da anchova, da cavala, da pescada, da albarana e do robalo, entre outros. Este ciclo dual repete-se, reiteradamente, a cada ano. Este ciclo pode durar entre 06 (seis) a 08 (oito) meses de maneira consecutiva. Somente é interrompido no “dia da vez” da pesca de arrasto de cada “Companha”. Por outro lado, cotidianamente, após pescaria, ocorrem à limpeza da rede e a feitura momentânea de reparos e remendos quando há o rompimento da mesma, devido aos cortes provocados instantaneamente por determinadas espécies de peixes.[1]

Parte dessa atividade é feita ao relento, e, quando necessário, se trabalha dentro dos “paióis” ou na garagem ou quintal de casa. O paiol serve como abrigo ao sol, a chuva e ao vento. Vez ou outra é usado na feitura de almoço quando o “lanço” é certo no “dia da vez” da “Companha”. Quem faz este “ofício” de fazer, reparar e consertar são os mestres sabedores da cultura popular da Praia do Pontal. Nessas atividades, inclusive, exige a maestria sobre o “fazer” uma rede que é bem diferente do que reformar, remendar e conserta a mesma. Quem faz uma rede possui conhecimentos do todo, e não só das partes. Este aprendizado é empírico e vêm desde tenra idade, na observação, com experiências e vivências, legadas pelas gerações dos antigos pescadores. [2]

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Reparo, reforma e conserto das redes, entre outros petrechos da pesca – 2014.

À princípio, na rotina da pesca de “arrasto de praia”, pelo menos, se trabalha diretamente com 12 (doze) itens e mais outros 05 (cinco) itens auxiliares no procedimento de movimentação e deslocamento da canoa para às atividades de captura do pescado: retira-se a coberta da canoa (1) que guarda os cabos e a rede de pesca, e que protege a canoa do sol. Assim, como, os “paineiros” (2) – placas toscas de madeiras assentadas na proa e na popa – que servem como proteção da canoa ao relento; põem-se, no interior da mesma, até dez cabos (3) sobressalentes, ou não -, com espessuras, cores e comprimentos distintos (cada cabo pode variar entre 30 a 60 metros de comprimento); além dos remos da canoa (4) classificados em remo de proa, meio, contra-ré e ré (todos, com 14 palmos) e o remo do “guia” do “mestre da canoa” (até 10 palmos). O “mestre da canoa” trabalha em pé, em cima do “paineiro” da popa. Geralmente, os cincos remos são feitos de maçaranduba ou de Angelim.

Os remadores da proa, meio, contrarré e ré, sentado, nos seus respectivos bancos, colocam os remos nas “troleteiras” (5), na borda da canoa, para facilitar o uso e os movimentos dos seus respectivos remos. Todos têm que remar na cadência, para haver o mínimo de esforço e desconforto físico. As “troleteiras” evitam o descarte do remo na borda da canoa decorrente do movimento das remadas, além de ajudar no equilíbrio dos remadores sobre a canoa. Na sequência da remada, os remos devem ficar a 04 palmos para dentro da canoas e os 10 palmos restantes ficam dentro d água. Não se rema nem muito ao fundo, nem muito acima, da superfície da água. E só se usa na remada, a pá do remo. Se usar a mais da medida da pá, além de atrasar a velocidade da canoa, atrapalha os outros remadores.

Na proa, amarrada na guia, põe-se o único ferro de inox (6) com a respectiva boia de plástico branca e as boias de isopor para a rede; leva-se, pelo menos, uma cuia plástica (7) de capacete de operário e/ou caixas plásticas grandes com alça. Como toda canoa entra água do mar; bota-se a água para fora através de qualquer vasilhame. Antigamente, as “cabaças” eram as cuias naturais. As mesmas eram serradas ao meio; ou acima, para se colocar um laço feito alça. Hoje, usa-se o capacete de operário. Mas pode-se usar um balde ou uma lata ou qualquer outro objeto identificado e valorizado como cuia – como relata “Barriguinha”.

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Uma das “Companha” da Praia do Pontal – 2015.

No chão, em paralelo, se usa quatro barras de madeiras toscas de eucalipto (8), como guias, em formato de “trilho”, com seis metros de comprimento com duas polegadas de diâmetros; e, sobre as mesmas, desliza-e pelos menos dois canos galvanizados (9) – para a canoa grande – de duas polegadas, cada um medindo de 1,20 a 1,50 cm de comprimento para o deslocamento e movimentação da canoa da beira da praia para o mar (e, vice-versa). Ou duas toras de madeiras ou de PVC, com mais de quatro polegadas por 1,20 a 1,50 cm de comprimento, para as canoas pequenas. Usa-se um único pedaço de madeira, chamado de “guia da canoa” (10). Geralmente é uma madeira forte, pesada e resistente como a maçaranduba com comprimento de 1 metro de espessura e grossa. A mesma serve para alinhar os canos galvanizados (ou, as toras de madeira ou PVC) quando há necessidade de manter a direção da canoa ao entrar e/ou sair da beira da praia.

Quando a pesca é de “gancho” (ou “Caxangá) os pescadores utilizam as “garatéias” (11) para prendê-las na rede de pescar que fica nas proximidades das pedras, na altura do canal da Álcalis, no Canto do Pontal. Seus ferros e boias são feitos artesanalmente. Em particular, na confecção das boias se reutilizam objetos achados nas praias (isopor, cordas, nylon, pano de rede); ou mesmo, são sobras das redes e panos existentes nos “paióis”. As boias artesanais tem vários formatos e são envolvidas nas malhas de rede e presas por nós comum (nós de “pinha” ou “trançados” ou “nós de pescador”) com um cabo prolongado de até 1,50 metros. Há outras variedades de “nós” que os pescadores utilizam na rede ou em outro petrechos de pesca, como, por exemplo, os nós de “porco” e de “laço de guia”.

E, lógico, usa-se as redes de arrasto com os cabos (12) que sem elas não acontece à pesca tradicional. Uma rede de pesca grande pode ter cerca de 350 a 400 metros (ou, aproximadamente, 200 braças de comprimento) com um total de 400 cortiças, e uns 50 quilos de chumbos (em rodelas). Uma rede de arrasto grande é dividida em partes simétricas, com malhas ou panos de seda e de nylon em dimensões distintas e diferenciadas. Tem-se a manga, o encontro e o copio com os respectivos cabos (tralhas). Por exemplo, se as malhas da manga tiverem 13 mm ou 14 mm; o encontro, nos panos grossos, poderão ter malhas de 14 a 16 mm; e, o copio 12 mm por ter malhas pequenas. O copio é a parte central da rede e tem um formato de um “saco” onde o peixe fica retido e é capturado. E, no meio da rede, têm se o “capitão” que é uma boia colorida que sinaliza essa posição na rede. As forcadas (ou calões) é uma madeira reta e resistente feita artesanalmente com a função de manter submersa a rede e não permitir que nem a tralha da cortiça e nem a tralha do chumbo, rodem e se embaralhem ao serem puxadas no cerco de praia.

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“Companha” no arrasto de rede na Praia do Pontal – 2011.

Os cabos sobressalentes têm tamanhos variados, em média, de até 45 metros de comprimento e com uma espessura de uma polegada ou até de ¾. Evitando assim, ao puxar, que os cabos machuquem as mãos de quem faz o arrasto a beira da praia. Os mesmos são levados a bordo como medida de precaução e segurança em função do esforço de pesca. Não se usa todos os cabos, mas sim, o necessário, para se alcançar os cardumes ou as mantas de peixes. E, só se pode ir até aonde a “rede pode tomar pé”. Isto é, a rede tem uma medida de 14 a 15 metros (ou 10 braças) de profundidade. Se não tiver essa profundidade, o peixe escapa pelo fundo.[3] Na popa se usa mais os cabos, do que na proa. Porque a proa é chegada de canoa, a beira da praia. E, tendo mais cabo na popa, que é saída da canoa da beira da praia, facilita a pescaria – relata “Barriguinha”.

Pescam-se na sorte ou na “fortuna”, ao longo dos pontos de referência da pesca, bem como pelo demandar do “mestre vigia” da pesca. Quando se faz o “Caxangá”, na Praia do Pontal, assim, como, nas demais praias, utilizam-se a rede de arrasto própria junto com os ferros das “garatéias” e as respectivas boias. Evitando, assim, o encalhe da mesma e/ou que sofra as influências e os repuxos das correntezas. No “Caxangá” colocam-se a canoa rente e presa com cabos nas pedras do Canal da Álcalis. Espera-se os cardumes ou mantas de peixe para posteriormente, se fazer o arrasto pela beira da praia no ponto de referência da pesca denominado “Canto do Pontal”. Pesca-se com o “Caxangá” somente durante o dia, e na temporada do bonito e do serra.

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Cerco com “Caxangá” e ao fundo a Ilha do Pontal – 2014.

Existem outros itens e bens culturais disponíveis para as tarefas e a organização do mundo do trabalho que podem mitigar os esforços e a operacionalidade de cada “Companha”. Neste sentido, têm-se: a “linha de boia ou beta” (13) que consiste numa corda fina de uns 100 metros de nylon presa a um palmo de madeira e, que boia. A “linha de boia” é rodopiada e lançada com força perto da arrebentação pelo “mestre da canoa” para o “cabeiro”, dando inicio ao “arrasto de praia”. Há, ainda, os “sarricos” (14) de mão que, às vezes, são utilizados para deslocar o excesso de peixe da canoa e/ou da rede para as caixas plásticas (fechadas) (15). Cada caixa cabe até 20 kg de peixes. Exceto, para os peixes grandes. Bem como as caixas plásticas (vazadas) (16) que servem para lavar o peixe e outros resíduos do pescado, a beira da praia. Essas últimas são fornecidas, geralmente, pelos atravessadores e donos de peixarias. Além disso, têm-se as “cunhas de madeiras” (17) de diversos tamanhos e formatos que travam os “roletes” sobre os trilhos das barras das madeiras toscas de eucalipto. Nos “paióis” se guardam o ferro de inox e os cincos remos, as “garatéias”, as boias, os “sarricos”, as cuias, as “troleteiras”, entre outros itens. Sem esses petrechos, não há como exercer a pesca de “arrasto de praia” tradicional. Os mesmos constituem instrumentos de trabalho imprescindíveis para a realização dos esforços de pesca, e para a constituição da organização e da divisão social do trabalho. Todos esses itens ficam guardados e armazenados no “paiol” e nas canoas que ficam ao relento, na área do “Porto das Canoas”.

 

 

 


[*] Texto extraído do Relatório sobre o Patrimônio Cultural e a Chancela da Paisagem Cultural no território da pesca tradicional da Praia do Pontal, na Reserva Extrativista Marinha de Arraial do Cabo – RJ” de Paulo Sérgio Barreto/Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio/Conservação da Biodiversidade e Promoção do Desenvolvimento Socioambiental, Arraial do Cabo, 2015, pág. 82-97 (prelo).

[1] Em 365 dias do ano, as 04 (quatro) “Companhas” da Praia do Pontal trabalham alternando, a cada semana, no seu “dia da vez”, em média, 91 dias e meio ao ano só nas atividades de “arrasto de praias”. Deve-se considerar que, a maioria dos pescadores pescam também nas distintas “Companhas” dessa mesma praia, bem como, nas outras praias e em outras modalidades de pesca.

[2] Possivelmente, na Praia do Pontal, quem domina o processo de “fazer”, reformar e consertar rede de arrasto são os seguintes pescadores: Moacyr e “Barriquinha” auxiliados pelos membros da “Companha” “Cemar” “Paulo Chinês”, “Neguinho”, “Pinguim” e “Ilmo”. Já o “ALX”, “Bitico” e “Lhaco” são auxiliados por outros pescadores e mestres, inclusive, da Praia Grande.

[3] Na Praia do Pontal e na Prainha as redes vão até 15 metros de profundidade. Já na Praia Grande, chega-se a 12 metros de profundidade.

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