Pesca de arrasto

 A “pesca de arrasto” (ou de cerco) em Arraial do Cabo – RJ[*]

Por: Paulo Sérgio Barreto
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Mapa: Arquivo ResexMar AC/ICMBio, elaboração Whithey Goodell – 2015.

A “pesca de arrasto” (ou de cerco) a beira da praia foi de fundamental importância para o surgimento da Resex Marinha de Arraial do Cabo – ResexMar AC, em 1997. [1] Todo prestígio e reconhecimento social da pesca tradicional em Arraial do Cabo decorrem dessa pratica centenária que, ainda hoje, continua sendo o esteio para as definições das construções das regras e dos costumes da pesca local. A ResexMar AC possui, aproximadamente, 1.600 famílias de beneficiários diretos que estão distribuídos nos territórios e nas áreas de pesca próximas a beira da praia, costões e na Lagoa de Araruama com uso dos “paióis” (ou “barracões de pescadores” ou “trapiches”, “ranchos de pescadores” e “abrigos de pescadores”); “pontos do vigia”, “porto das canoas” e “Marina dos Pescadores” para embarque e desembarque do pescado. [2]

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Mapa: Arquivo ResexMar AC/ICMBio, elaboração Whithey Goodell – 2015.

 

 

 

 

 

Até a década de 50, Arraial do Cabo se caracterizava por ser uma vila de pescadores com uma identidade cultural influenciada pela arte da pesca tradicional como forma de subsistência, devido ao seu isolamento geográfico. Criando assim, uma linguagem e visão de mundo própria – bem diferente do mundo atual -, com relações sociais baseadas no parentesco, na cooperação, nos laços de confiança e na solidariedade grupal como atenuantes das diferenças e das desigualdades sociais.

Graças a um fenômeno conhecido como Ressurgência o mar em Arraial do Cabo é limpo, frio e muito rico em vida marinha. A pesca tradicional (e profissional) é praticada em toda a costa e nas ilhas do município, apresentando grande diversidade de espécies de peixes e crustáceos. Os pescadores artesanais possuem estreita relação com os seus territórios da pesca a partir do conhecimento tradicional, afetivo e simbólico sobre as praias, costões e ilhas. Um percentual significativo dos pescadores artesanais pescam (ou, pescavam) nas mesmas praias, desde tenra idade, alguns nas mesmas artes e modalidades de pesca.

Em particular, a pesca de “arrasto de praia” envolve 09 (nove) pescadores que formam “Companhas” ligadas aos proprietários de canoas, rede e/ou dono de “paiol”, relacionada ao “dia da vez” da pesca tradicional. [3] Enquanto “direito” herdado pelo costume e pela tradição, no acesso privilegiado aos recursos pesqueiros e a “propriedade” comunal da praia. Nesta atividade artesanal vigora a divisão social do trabalho baseada nos saberes, nas regras e nas práticas tradicionais, e na partilha do pescado, com “quinhão” diferenciado entre os membros e os proprietários. Estes últimos, geralmente, participam das negociações das vendas, estocagens do pescado e dos custos de manutenção para os reparos das canoas e das redes de pesca.

“O principal centro de pesca de arrasto na zona em estudo é o Arraial do Cabo (Cabo Frio), onde encontramos mais de cinquenta canoas e redes de arrasto e aonde há uma verdadeira organização que visa ao rodízio das embarcações, trabalhando diariamente, duas na Praia Grande e uma em cada uma das praias do Anjo, do Forno e do Farol, esta na ilha fronteira ao continente. De cada lance do arrasto participam nove homens. Destes, sete seguem na canoa, sendo quatro remadores, dois “batedores” de rede e o mestre. Em terra permanece além do vigia, o “cabeiro” que segura a “bêta” deixada quando parte a canoa. Do vigia depende, em grande parte, o êxito do lance. Cabe-lhe ficar de espia em uma elevação e avisar aos companheiros a aproximação dos cardumes. Geralmente reconhece com precisão a qualidade e a quantidade do peixe pela cor da mancha que aparece no mar, sua extensão, a velocidade de seu deslocamento. Assinalado o cardume, lança-se ao mar rapidamente a canoa escalada para esse dia, dirigindo-se para o local indicado. A certa distância da praia começam a soltar a rede, presa a um cabo cuja outra extremidade ficou em terra, em mãos do “cabeiro”. A canoa descreve, então, um semicírculo, aproximando-se novamente da praia. Ao terminar o lançamento da rede, é trazida à terra a extremidade do cabo a ela preso. Encosta na praia a canoa e seus tripulantes, auxiliam por todos aqueles que aí se encontram, homens, mulheres e crianças, unem esforços na faina de puxar a rede para a terra. Realiza-se, então, o arrastão propriamente dito: a rede, cuja tralha de chumbo atinge o fundo, é arrastada para a terra trazendo consigo todos os peixes que tinham sido cercado no lance. É esta, em essência, a forma como se processa o arrastão de praia”. [4]

 

Nem sempre essas práticas são vivenciadas, no cotidiano da pesca, sem conflito e disputa de interesse entre pescadores, proprietários e atravessadores do pescado. Existe, também, uma volatilidade, rotatividade e escassez dos membros das “Companhas” devido às questões de renda, trabalho e das incertezas quanto aos ganhos e perspectivas futura da pesca na cidade. Entretanto essa prática demarca uma tradição a beira mar que, até há pouco tempo, envolvia núcleos familiares com relações extensas de parentesco e de compadrio, exclusivamente, focados em determinados territórios coletivo da pesca. Formar uma “Companha” significa mais do que manter laços esporádicos e eventuais de trabalho frente à pesca tradicional. Para alguns poucos companheiros de pesca, a mesma, imprime, nas trajetórias das vidas dos indivíduos, vínculos de compadrio e de interdependência de longa duração entre as sucessivas gerações de pescadores. A rigor pode-se aventar que pequenos grupos de pescadores mantêm convivência e fidelidade rotineira as “Companhas”, durante 30 a 50 anos ininterruptos de suas vidas. Facilitando, assim, a identificação, a localização e a associação dos mesmos aos donos das “Companhas” e/ou a determinadas canoas, redes e “paióis”; bem como, as artes e as modalidades de pesca, em cada “praia de pescaria”, ao reforçar os vínculos e os sentidos de pertencimento aos territórios da pesca tradicional.

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Pesca de arrasto na Praia Grande, similar aos arrastos das outras praias da cidade – Anos 50. Acervo: Colônia dos Pescadores Z-5/Museu Nacional.

Até o final do século XX essa realidade da pesca tradicional era mais palpável, e se fazia presente nas praias da cidade. Hoje, aos poucos, este circuito existencial vive rupturas e “colapsos” cotidianos. De um lado, não se conseguem formar tantas “Companhas” quanto antes, em razão das outras opções de trabalho e de ganhos econômicos e simbólicos para além da pesca tradicional. Seja, também, pela não adesão, continuidade e engajamento dos parentes mais próximos aos donos das “Companhas”. Seja, ainda, por que essa convivência de longa duração – familiar e/ou extensiva aos companheiros de pesca – sempre fora marcada pela ambiguidade, desigualdade e assimetria de poder. Em virtude do monopólio e exclusividade na posse e uso dos “paióis”, canoas, redes e petrechos de pesca por parte dos donos das “Companhas”. Pode-se aventar que, persistem certas “coerções” simbólicas e afetivas embutidas no que ficou reconhecido socialmente como a pesca tradicional.

Em sentido mais amplo a busca de ganhos econômicos mais individualistas propiciou a construção de novas subjetividades, enfatizadas pela “globalização” e pela “modernidade tardia” e por novos arranjos tecnológicos, econômicos e sociais destituídos dos saberes tradicional frente à natureza do lugar e descompromissados com a ideia de comunidade tradicional. A exaltação aprofundada do “desenvolvimentismo” com a sua ânsia desmedida pelo “progresso” – a partir dos anos 1950 – trouxe como consequência o processo de transformação da paisagem através da industrialização, incipiente e inconclusa, com o advento da Álcalis, e, posteriormente, o paulatino incremento populacional, especulação imobiliária, “turistificação” e a intensificação da pesca e escassez do pescado. Possivelmente, estes fatores contribuíram para a desagregação das relações comunitárias tradicionais na Região dos Lagos. Principalmente após 1973, com a abertura da Ponte Rio Niterói.

No filme Arraial do Cabo, de 1959, de Paulo César Saraceni, o confronto – se é que havia, naquela época – era entre um lugar perdido e idílico de pescadores artesanais e o surgimento da indústria Álcalis que contribuiu – mas não só ela, exclusivamente – para redefinir, a partir daquele momento histórico, os lugares e os “cantos das praias” de Arraial do Cabo com sua gente e grupos sociais no “turbilhão” de uma modernidade incipiente e inconclusa. Bem ao gosto do Fordismo, com a sua linha de montagem, vila industrial, hierarquias no comando e reprodução da sociabilidade inscrita na lógica racional do capital e da industrialização iniciada à época do Estado Novo, e tendo o seu prolongamento e consolidação no período do “desenvolvimentismo” de JK e das falácias de segurança nacional da ditadura de 1964. E, após privatização, no final dos anos noventa, a empresa entra em colapso deixando suas marcas profundas de “promessa de desenvolvimento” na paisagem e na natureza da cidade e da Região dos Lagos.

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Uma das “Companhas” a beira da praia, e ao fundo a Ilha do Pontal – 2010.

A pesca é a condição de vida que instaura as relações de trabalhos, as sociabilidades, os conflitos e os ganhos tecnológicos e patrimoniais ao criar o “senso” de pertencimento a uma “comunidade imaginária”. Quando se instala a lógica econômica e social da modernidade, esta coloca em crise toda uma representação existencial sobre a paisagem, a natureza e a própria identidade do pescador artesanal. Coloca, enfim, uma nova representação do pescador em relação à natureza e a sua existência. E, nesta “adesão”, este começa a perder não só a terra (seus territórios e lugares são ocupados para empreendimentos imobiliários e turísticos); mas, também, todo um saber patrimonial, simbólico e tecnológico. Seus saberes-fazeres tornam-se obsoletos, invisíveis, “desnecessários” e irrelevantes diante do mundo do consumo, das novas mídias, dos fluxos de visitantes e da escassez do pescado.

Essas mudanças colocam em crises os valores, crenças, identidades, autoestimas e saberes-fazeres na medida em quê, os conhecimentos tradicionais – transmitidos oralmente, pela observação e pela experiência da natureza e da paisagem – tornam-se invisíveis diante da racionalidade e da eficácia de um “mundo novo” globalizado, desterritorializado e “desencantado” pautado na regulação econômica dada pela lógica do mercado de trabalho do capital. Os seus territórios, pedaços e lugares são mercantilizados e/ou seus usos são redefinidos pelos entes públicos e por particulares a partir de sensos éticos e estéticos demarcados pelo paradigma epistemológico hegemônico da modernidade ou da alta modernidade.

O “saber tradicional” na Região dos Lagos, assim como, em qualquer outro lugar que existam populações tradicionais, é empírico e existencial, acumulado por diversas gerações, e, se expressa através das trocas de conhecimentos, experiências e vivências sobre o mar e os ciclos dos peixes; os movimentos dos ventos, das marés e das luas, bem como, em menor escala, sobre os ciclos e as estações que podem, ou não, incidir no acesso aos recursos pesqueiros. Estes “saberes tradicionais” são “carregados” de uma simbologia, imaginário e cosmovisão que demarcam relatos sobre a pesca com as suas astúcias, sabedorias, reminiscências e lembranças dos antepassados; os entes vivos, reais e imaginários e, mesmo, as narrativas que guardam em “segredos” os locais de pesca – costões, beira de praia e lagoa – com os seus causos, gestos e marcas que classificam, nomeiam e definem as espécies da natureza ao servir como parâmetros para o manejo sustentável. Estes conhecimentos e saberes alertam os imprudentes e as “novas gerações” de “pescadores urbanos”, destituídos da tradição da pesca artesanal, quanto ao uso intensivo dos recursos pesqueiro.

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Vista da beira da Praia do Pontal. Ao fundo, as ilhas de Cabo Frio e Armação dos Búzios – 2015.

As identidades culturais são socialmente construídas a partir dos sentidos e valores atribuídos as pessoas, objetos e lugares que reforçam os vínculos afetivos de pertencimento a um determinado território, no bojo de “comunidade imaginária”. Criam-se, assim, dois “mundos” desencontrados: o “mundo encantado” da geração de antigos pescadores, entre outras populações tradicionais, que, de certo modo, ainda vivem na/da natureza e que estão fadados a serem descartáveis e obsoletos e/ou quando muito componentes de souvenir do consumo globalizado. E o “mundo desencantado” das novas gerações de moradores e “pescadores urbanos” inseridos nos arranjos científicos e tecnológicos da modernidade – como a recente prospecção do “Pré-sal” -, anunciando a mesma retórica gasta, estéril e angustiante do “progresso” e do “desenvolvimento” – que gera ainda mais “subdesenvolvimento” – quando desconsidera o envolvimento sustentável e os sentidos profundo sobre as paisagens e a natureza dos lugares. Um território existencial de “comunidades imaginárias” marcada pela ambivalência e pelo sentimento de deriva, de “sofrimento” e de crise de identidade na sociedade contemporânea.


[*] Texto extraído do Relatório sobre o Patrimônio Cultural e a Chancela da Paisagem Cultural no território da pesca tradicional da Praia do Pontal, na Reserva Extrativista Marinha de Arraial do Cabo – RJ” de Paulo Sérgio Barreto/Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio/Conservação da Biodiversidade e Promoção do Desenvolvimento Socioambiental, Arraial do Cabo, 2015, pág. 28-34 (prelo).

[1] A Resex Marinha de Arraial do Cabo, localizada no Estado do Rio de Janeiro, foi criada pelo Decreto Federal s/nº de 03 de janeiro de 1997, abrangendo uma área de aproximadamente 51.601,46 hectares. A UC é um cinturão pesqueiro entre a praia de Massambaba, na localidade de Pernambuca e a praia do Pontal, na divisa com Cabo Frio, incluindo a faixa marinha de três milhas da costa de Arraial do Cabo.

[2] No presente Relatório o termo “paióis” será usado de forma recorrente. Entretanto, implicitamente, abarcar também os outros termos usuais (“barracões”,  “ranchos” e “abrigos” de pescadores). Inicialmente, em versões anteriores do presente Relatório, optou-se pelo termo “trapiche” em detrimento do uso costumeiro de “paióis”.

[3] A etimologia da palavra “Companha” deriva de companheiros e significa, também, agremiação de pescadores (Verbete tirado do Novo Aurélio – Eletrônico).

[4] BERNANDES, Lysia e BERNARDES, Nilo. A pesca do litoral fluminense. In: Anuário Geográfico do Estado do Rio de Janeiro. No. 08, Ano 1955, p.27-62.

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