Memória oral

A documentação audiovisual das “Oficinas de transmissão do saber-fazer reparos de canoas de boçarda” foi feita conjuntamente entre o pesquisador social Paulo Sérgio Barreto e o mestre carpinteiro naval Wilson Luis da Silva, durante o período de 2013-2015, dentro do escopo da relação institucional entre o IPHAN/ETRL e a Reserva Extrativista Marinha Arraial do Cabo/Instituto Chico Mendes para a Conservação da Biodiversidade - RESEXMar/ICMBio.

As “Oficinas de transmissão do saber-fazer reparos de canoas de boçarda” baseavam-se na metodologia de registro da memória oral e da história de vida, através da documentação audiovisual, e, foram desenvolvidas a partir da canoa “Veada” (de propriedade de Elevica Benjamim Andrade, apelido “Vica” - o amigo que incentivou o Chonca a consertar, pela primeira vez, uma canoa de “boçarda”).  

A área do estaleiro ou “Porto das Canoas” da Praia Grande localiza-se no terreno íngreme entre o paiol do Chonca e o “deck”, o que exigia constantes deslocamentos do Chonca para ter acesso as suas ferramentas manuais e elétricas. A canoa “Veada” ficava localizada embaixo do “deck” vazado e as ferramentas ficavam dentro do paiol ou na bancada do entorno do paiol. Isso prejudicou muito as atividades das oficinas, e o “humor” do Chonca. Fora isso, com o falecimento do “Vica”, em 04 de janeiro de 2015, as relações de trabalho para a reforma da canoa “Veada” foram se acomodando num ritmo muito mais moroso.

As “Oficinas” de carpintaria naval com o “Chonca” aconteceram pelo menos duas vezes por semana, com algumas interrupções prolongadas, ocasionadas ora pelas monções acompanhadas por ventos fortes e/ou chuvas ininterruptas; ora pela incidência forte do sol no verão de 2014, que, se repetiu no verão de 2015. Essas contingências dificultaram, em parte, os trabalhos das oficinas e da documentação audiovisual, já que, as oficinas e a documentação eram realizadas ao relento, causando, assim, períodos prolongados de estagnação das atividades de documentação audiovisual e da reforma da canoa “Veada”, devido às dificuldades operacionais no ambiente de trabalho. Este fato também dificultou a rotina e a frequência dos aprendizes nas oficinas de miniatura de “canoas de boçarda”. Ademais, em momentos cruciais do trabalho de acompanhamento das oficinas, houve interrupções e descontinuidades das atividades de documentação audiovisual, em virtude das demandas de outros proprietários, para que o “Mestre Chonca” reparasse outras embarcações da Praia Grande, e das outras praias

Como de costume, as atividades de carpintaria do “Mestre Chonca” possibilitaram o encontro reiterado dos pescadores e moradores num esforço espontâneo de reviver reminiscências sobre a pesca, a Álcalis, o futebol, a política e as transformações cotidianas da cidade. Alguns deles davam suporte, apoio e auxilio eventuais nas pequenas rotinas do trabalho da carpintaria naval, principalmente, nas atividades que necessitavam de ajuda, como, por exemplo, “segurar” uma madeira pesada e comprida para o corte com o “traçador”. e/ou o serrote, assim como para o rebate e a apara com a plaina elétrica. Havia colaboração e muita oralidade também nas narrativas explicativas sobre as etapas do oficio de carpinteiro naval.

Buscou-se registrar a situação apresentada, evitando quaisquer formalidades nos depoimentos e/ou a produção de “cenário” das atividades executadas. As pessoas, amigos, aprendizes e conhecidos tinham ciência da proposta de trabalho e espontaneamente participavam dos relatos e das memórias orais, enquanto o “Mestre Chonca” executava suas atividades de carpintaria naval. Deve-se frisar, também, a presença do pescador Alex Ferreira (conhecido como Alex “X”) como o potencial “substituto” e aprendiz do “Mestre Chonca”. Alex X já vinha trabalhando nas reformas e reparos de outras embarcações da Praia Grande, aprendendo, portanto, de forma sistemática e prática o “saber-fazer” de reforma, reparo e restauro artesanal com o “Mestre Chonca”. Alex X, inclusive, participou e contribuiu para a reforma e feitura dos petrechos e partes da canoa “Veada”, ao longo desde período.

Neste sentido, foram realizados fragmentos de pequenos vídeos de curta duração (entre 01 minuto a mais de 60 minutos, sem interrupções), com dias e horários diferenciados, mas que abrangem vários relatos, narrativas e reminiscências sobre a pesca e a cidade, de modo concomitante ao trabalho de documentação audiovisual da reforma da canoa “Veada” e das oficinas de “miniatura de embarcações”.

Memória oral