A “Sala Expositiva” do Museu Escola Naval

SALA EXPOSITIVA DO MUSEU ESCOLA NAVAL

 

A “Sala Expositiva” do Museu Escola Naval foi inaugurada no dia 21 de setembro de 2016 com a participação atuante do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMbio) e do Conselho Municipal do Meio Ambiente/Secretaria de Meio Ambiente de Arraial do Cabo. Tem como objetivos básicos contribuir para a salvaguarda da pesca tradicional nos territórios dos “Portos das Canoas” das praias de Arraial do Cabo (RJ).

O Museu Escola Naval objetiva trabalhar com a memória oral, a documentação audiovisual e os sentidos de pertencimento aos territórios da pesca tradicional. Visa, também, gerar trabalho e renda para os mestres “sabedores da cultura popular”, pescadores e membros do “Banco do Pau Mole”, entre outros moradores, através da oferta e da venda de miniatura de “canoas de boçarda”. Seja ainda pela realização de oficinas de miniatura de “canoas de boçarda” com o objetivo de ampliar a coleção de embarcações tradicional para o Museu; seja pela encomenda e venda das mesmas com o compartilhamento de trocas de conhecimentos, habilidades e maestrias entre os participantes. Seja, também, pela reforma e recuperação das grandes “canoas de boçarda” e na confecções de apetrechos da pesca e na implantação de roteiro em TBC – Turismo de Base Comunitária.

O nome da  “Sala Expositiva” do museu é uma homenagem em vida ao Mestre Carpinteiro Naval Wilson Luiz da Silva (apelido, “Chonca”) e aos demais  membros do grupo autodesignado de “Banco do Pau Mole” além de outros “mestres sabedores da cultura popular”, pescadores e moradores da cidade.

 

AS CANOAS DE BOÇARDA E A PESCA DE ARRASTO

 

Em Arraial do Cabo existem ainda numerosas canoas artesanais, feitas de um só tronco e reconhecidas na região como “canoas de borçada” que navegam à remo, sendo uma das tipologias de canoas de bordada. Estas canoas são fundamentais na “pesca de arrasto” (ou de cerco) de beira da praia e foi de fundamental importância para o surgimento da Reserva Extrativista Marinha de Arraial do Cabo – ResexMar A C /I CMbio, em 1997. Todo prestígio e reconhecimento social da pesca tradicional em Arraial do Cabo decorrem dessa prática centenária que, ainda hoje, continua sendo o esteio para as definições das construções das regras e dos costumes da pesca local. Graças a um fenômeno oceanográfico conhecido como Ressurgência, em Arraial do Cabo o mar é limpo, frio e muito rico em vida marinha. Este fenômeno consiste na subida de águas profundas, ricas em nutrientes, para camadas de água superficiais no oceano.

Cada gesto, movimento, prática, destreza e habilidade, na situação da pesca, são negociados entre os membros das “Companhas” visando à execução dos esforços da pesca. Existe uma divisão de tarefas entre os mesmos: o “Mestre Vigia” – que fica na parte alta de um morro, em dunas ou em outra elevação – observa, orienta e gesticula quanto à chegada de uma manta, cardumes ou magotes de peixes. E o “Mestre da canoa” trabalha em cima do “paineiro”, na popa da canoa. Este acompanha e observa os gestos do vigia através das demandas, relatos e falas dos companheiros das canoas. E, assim, o “Mestre Vigia” “demanda” a direção, a cadência e o ritmo aos demais companheiros no movimento de remada das “canoas de boçarda” para o cerco à beira da praia. O “proeiro” rema na proa e o “meeiro”, rema no contra proa, seguidos dos pescadores que remam na “contra ré” e na “ré”. O “chumbeiro” e o “curticeiro” não remam. Estes têm a função de jogar o chumbo e a tralha com as cortiças de forma harmoniosa e rápida ao mar e ficam atrás dos pescadores que remam, e entre o mestre da canoa. O “cabeiro” acompanha a canoa pela beira da praia, até que alguém da canoa o lance a “linha de boia” – cordinha de nylon pressa ao cabo da rede para que ele possa juntar ao cabo da “bêta”. Para assim, proceder, propriamente dito, o “arrasto de praia”.

 

PARTES DAS CANOAS DE BOÇARDA

 

  1. “Beque” de proa
  2. “Patilha” da Proa
  3. “Boçardas”
  4. “Paineiro” da Popa
  5. “Mãos” dos bancos
  6. “Dormentes” dos bancos
  7. Caixas das “troleiteiras” com as quatros “troleiteiras”
  8. “Bordas” da canoa
  9. Bancos da proa, contra proa, ré, contra ré e do meio
  10. “Coberta” da canoa
  11. “Paineiro” da Popa
  12. “Asa” de popa
  13. “Espelho de popa”
  14. “Patilha” da Popa.

 

ESTRUTURAS FÍSICAS DAS CANOAS DE BOÇARDA

 

“Beque” da proa – Peça fixada na ponta da proa que serve como guia de navegação. Sua maior serventia, ao ancorar, é em prender o cabo da ancora sobre o mesmo, fazendo o “laço lais de guia”. Laço fácil de fazer e de desfazer, nas situações de pesca;

“Patilhas” – Peças na proa e na popa com a função de proteção do casco da canoa, caso a mesma venha bater em uma pedra ou ferragem. A mesma ajuda a cortar as ondas, e facilita as remadas;

“Asa” na popa – Peça que ajuda o mestre das canoas nas manobradas, quando se joga a rede ao mar;

“Espelho de popa” – Peça que segura a parte da borda com a “asa” além de servir como extensão e comprimento da borda da canoa;

“Cavernas” – Peças pequenas e côncavas colocadas, internamente, ao longo do bojo das “canoas”, como se fosse uma estrutura na forma de “esqueleto”. As mesmas são feitas quando a canoa é aberta ao meio, de uma ponta a outra;

“Mãos” dos bancos – Peças usadas para segurar e fixar as bordas da canoa. As mesmas ficam presas, acima dos bancos da proa e do meio. Estes bancos têm a função de “segurar” e não deixar “abrir” o casco das canoas;

“Dormentes” dos bancos – Peças usadas para segurar como suporte dos “paineiros” e dos bancos do meio, da proa, contra proa, ré e contra ré;

“Agentes” da popa e da proa – Peças compostas por duas hastes pequenas colocadas e fixadas, em paralelo, no casco interno da canoa com a função de separar – por uma placa móvel – a área de colocação dos cabos dos das redes. Os mesmos ficam rentes, e abaixo dos bancos da proa e da popa;

“Caixas das “troleiteiras” – Peças fixadas na borda com dois furos que recebem as “troleiteiras”. Sem as mesmas, não há como trabalhar com os remos da proa, contra proa, ré e contra ré;

“Rombo” no casco – São duas bases de madeiras finas e compridas, em paralelo, sob o casco externo e ao fundo da embarcação.

E, por fim, o “Torno” na popa – pequeno orifício no casco que serve para vazar o excesso de água que entra na canoa. O mesmo é tampado com uma cortiça roliça e pequena, na situação de pesca. Quando a canoa é encalhada à beira da praia sobre os roletes, retira-se o “torno” para vazar a água do mar.

 

Atende o público de terça as sextas-feiras, no horário comercial. Agendamento no local. Localiza-se na Rua Epitácio Pessoa, s/n, na Praia Grande (Em frente, ao “Porto das canoas”).

Contato: mestresabedores@gmail.com