Chonca

O Wilson Luiz da Silva (apelido, “Chonca”) é o único mestre carpinteiro naval que domina o processo de reforma de canoas de “boçardas” de 02 e de 04 remos, em Arraial do Cabo, e, possivelmente, da Região dos Lagos. Desde os anos 70, Chonca atua na Praia Grande no seu estaleiro do “Porto das Canoas”, onde trabalha em horários flexíveis. Desde então, trabalha diariamente no mesmo local ou nos “Porto das Canoas” das praias da cidade. Ao longo dos anos esta área de praia fora invadida por quiosques e imóveis particulares, comprometendo os espaços de trabalho da carpintaria naval e dos encontros orais dos antigos moradores e pescadores tradicionais do “Banco do Pau mole”.

Chonca aprendeu o seu ofício observando, escutando e participando das pequenas reformas e restauros com os mais antigos mestres, como o seu Manoel “Passarinho” e o seu “Juca Cardoso” de Arraial do Cabo. Ou ainda, com o seu “João”, de Cabo Frio. Não há outro mestre naval atuante, na sua modalidade, na cidade de Arraial do Cabo. Todos os donos das embarcações tradicionais o procuram quando há necessidade de restauro e reforma. Ele transmite seus conhecimentos, para as gerações mais jovens que observam o seu “saber-fazer” de restauro e reforma de canoas de “boçarda” e “caíco”. É pela oralidade e pela vivência, observação, repetição, prática e experiência que o saber-fazer tradicional é acumulado, assimilado e transmitido informalmente àqueles que o auxiliam nas reformas de embarcação. Nestas relações, não se estabelecem trocas de conhecimentos formais entre Chonca e as gerações mais jovens que fazem assistência no “Porto das Canoas, uma vez que esses jovens somente o observam quando não estão trabalhando, estudando ou pescando.

As antigas “canoas de borçada” (ou “bordada” ou de um “tronco só”) eram feitas, principalmente, no distrito de Barra de São João (Rio de Janeiro) e em localidades da Bahia, Espírito Santo e Pará. As mais antigas eram retiradas da Mata Atlântica por artesãos que escolhiam as árvores e ali mesmo as derrubavam e escavavam para depois serem transportadas e conduzidas aos locais de destinos. Ao chegar, recebiam o acabamento característico da cultura da pesca artesanal local. Entre as décadas de 40 a 50, existia na cidade de Arraial do Cabo um número significativo de 70 a 80 canoas e, aproximadamente, 50 proprietários em todas as praias de Arraial do Cabo. Atualmente, existem 25 embarcações de “boçarda” que no “tratado da vez” são usadas na pesca de arrasto nas 04 praias da cidade, com um número inferior de proprietários. Estas poderiam (ou, ainda podem) ser de um único proprietário ou de vários proprietários associados. Assim, como, os “paióis” e as redes de pesca.

O mestre Chonca utiliza instrumentos de trabalho tradicionais, como, os diversos “enxós” de cortes retos, goivas, sargentos, martelos, serrotes, furadeiras, brocas, formões, pé-de-cabra, esquadros, réguas e lápis além de bancada de serra, trançador, maquita e as maletas de chaves com parafusos e trado manual etc. Hoje, no trabalho de remendo, usa-se apenas madeira, prego e cola naval. Antigamente, os mestres navais faziam esses serviços somente com madeira, chapa de cobre e massa caseira (tipo de cola).

No seu saber-fazer, esse mestre da carpintaria artesanal executa todas as tarefas necessárias da modalidade, tais como: aumento na largura da canoa e reparos em vazamentos. Cumpre, também, a tarefa de restaurar o “meio” da canoa de boçarda – do fundo da popa até a proa da canoa – onde se fixa o “rombo” (duplo sarrafo de madeira que serve para proteger e não atingir o fundo da canoa). O “rombo” serve para facilitar o movimento de deslocamento da canoas com uso de rolos (de madeira, PVC ou tubo de aço) para o mar e a beira de praia. Há, ainda, o restauro da “popa” da canoa (“patilha” e o espelho de popa) complementando ou não com a “asa” da canoa. Coloca, também, os bancos nas partes da canoas. Chonca faz ainda os “paineiros” (da proa e da popa); o “beque” de proa (que serve como guia para o mestre da canoa como ponto de referência de navegação); a “patilha” da popa (espécie de “quilha”), e, fundamentalmente, restaura, reforma e coloca as “bordas” da canoa – as duas peças de “boçarda” de proa – às vezes, utilizando troncos de “Saputiaba” (madeira da restinga, apropriada para essa atividades). E, finaliza o seu trabalho com a feitura dos 05 (cincos) remos; das 04 (quatro) “troleiteiras” e da “coberta” (estrutura de compensado em forma de triangulo fazendo-se de telhado para proteção da rede e dos petrechos de pesca deixado ao relento na canoa). Outros profissionais ficam responsáveis pelas tarefas de pinturas das “canoas de boçardas” e dos caícos.